sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Poema do silêncio em mim


O mundo todo se agita

Gira a Terra sem parar

Resta a mim o meu silêncio

É a ele o meu pensar


Refúgio no qual reflito

Mar no qual permaneço

Nele fico ao fim da vida

Ele há desde o começo


Sintoma de solidão

A assolar este alguém

Sendo a fala que se cala

E a resposta que não vem


Silêncio, espaço de tempo

Rico em significados

Opção de quem medita

Condição dos sufocados


Silêncio de quem contempla

Silêncio do céu sem fim

Silêncio de Ingmar

Silêncio habitou em mim

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Nada diz

Não há explicação encontrada para certos fenômenos que por mim não foram decifrados e indecifrados estão.

domingo, 2 de maio de 2010

Flor bela




Espanca, violenta e faz doer.
Uma dor gostosa, que todos merecem sentir.
Florbela, mais bela há de vir...

sábado, 1 de maio de 2010

Soneto da dedicação


Rosa branca que te dei
Flor tão pura da estação
Bolhas a ti dediquei
Sublime fabricação

No alto daquele monte
A gente se encontrou
Tua cantiga cantei
Teu olhar me cativou

Se nessa poltrona estamos
Se para a paisagem olhamos
Se o céu pede passagem

Estou ao teu lado assim
Pede um carinho pra mim
Fotografa a nova imagem

Soneto de amor caído


Teu corpo à minha frente
Teus lábios os mesmos são
Meu peito é brasa ardente
Dispara meu coração

Pareço o mesmo doente
De sua louca emoção
Lateja em minha mente
Desejo sem contentação

Outono, os frutos crescem
Com minha paixão parecem
Caem folhas pelo chão

Os canteiros entristecem
Marcas em mim padecem
Pegadas de uma paixão

segunda-feira, 22 de março de 2010

Ritual

Ia iniciar seu ritual. Prazeroso dever, o de tocar para si mesma. Olhou seu banquinho, era o mesmo de antes, mas estava diferente. Estava diferente, deveras. Apresentava outra cor? Sim, apresentava. Talvez só estivesse desbotado. Sobre seu instrumento estava o livro de partituras. Abriu na página 130. Sentiu em si a voluptuosidade daquele livro, daquelas notas, daquele momento, daquela canção.

Era ela que estava refletida alí, naquele mesmo piano lustrado. Usou a chave. Começaria a tocar.
E saiu o som.


Ela tocava o piano

Ela tocava o piano. Seus dedos já não pertenciam a si. Pertenciam a algo maior. Ela se emprestava toda à melodia e nela ficava submersa. Seus dedos tocavam as teclas como os dedos que tocam a medalha de ouro, amada medalha, com amor conquistada. Esses dedos percorriam tais teclas com pressa, com voraz sede do fim, ou sede da intensidade do momento. Se pudesse, beberia esse momento, gota a gota. Sim, ela queria completar a música, porém apreciava cada nota. Suas unhas, pintadas por um esmalte preto, descascado, eram uma visível demonstração de seu luto. A sala escura era, claramente, um reflexo de sua escuridão interior. Sozinha, nessa sala, ela se bastava. A música se tornou seu complemento, sua bebida, seu prazer, seu sentido. Sua lugubridade se transforma em ação, seus gestos se mesclam à poesia.
E saia o som.