Este texto foi criado a partir de um e-mail recebido, cuja suposta autora seria uma mãe, e também profissional em psicologia clínica, chamada Karla Christine. Seu foco de acusação...
O conteúdo desse e-mail se encontra disponível aqui: http://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20091103074907AAzBPIH
Caso se sinta impulsionado a isso, mande seu ponto de vista.
Sempre útil conhecer opiniões diversas, sejam elas parecidas ou contrárias à nossa.
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Falarei a respeito do e-mail "Cazuza, um idiota morto", como um complemento à já exposta opinião de meu colega Davi.
Creio que a autora do texto pode até ter alguma mensagem positiva para transmitir, entretanto, na minha convicção, foi muito infeliz em suas colocações.
Estou escrevendo isso, por ter achado grave a opinião dela, em diversos aspectos. Algumas coisas poderiam ser ignoradas, mas outras são bem sérias pelo conteúdo depreciativo, com potencial ofensivo não apenas ao Cazuza, que sequer pode se defender, mas a diversas outras pessoas, incluindo muitos pais. Isso atinge direta ou indiretamente a cada um de nós.
Não venho aqui defender as atitudes do Cazuza (também não venho condená-las, nem procurar motivos que as justifiquem), mas é inegável que a senhora Karla Christine apelou, sendo insensível e, até mesmo injusta, pois a vida particular daquela família não diz respeito a ela! Tampouco podemos nos achar capazes de julgar pais cujos filhos não se encaixaram nos padrões estabelecidos pela sociedade. Como, por exemplo, poderíamos condenar tantas mães e pais desesperados, que, portadores de semelhante ponto de vista, ou se deixando influenciar por tais opiniões, martirizam-se perguntando a si mesmos onde erraram na educação de seus filhos? Pior ainda: como podemos criticá-los tão friamente, com uma visão tão superficial e fragmentada de suas vidas. Algumas vezes os pais poderiam ter agido de forma melhor, em outras não, mas isso não vem ao caso.
A profissional mostrou sua opinião, também podemos mostrar a nossa.
Sei que não carrego diploma de um curso superior que pudesse trazer maior relevância a este conteúdo, mas isso não me impedirá.
Quero dizer que, cada vez mais, esperamos das pessoas menos moralismo e mais tolerância.
A censura do filme é 16 anos. Não sei se a filha adolescente da tal psicóloga tem essa idade ou não. Entretanto, o fato de haver censura, não é condição essencial para que todos aqueles com a idade mínima recomendada gostem; tampouco indica que todas essas pessoas deverão, obrigatoriamente, assistir ao filme, ou terminar uma sessão iniciada. Quem considera o enredo impróprio/ofensivo, ou se sente pouco à vontade diante do desenrolar das cenas, não é obrigado a vê-las. Se, não consideramos o protagonista da história como um modelo para nossos filhos e, mesmo assim, tenhamos optado por conferir a produção, conversemos com eles antes ou depois, com o cuidado de não torná-los preconceituosos ou de transmitir tal preconceito.
Outra questão abordada no texto da psicóloga foi o seu desejo de que só existam filmes referentes às pessoas que ela consideraria merecedora de admiração/idolatria, sendo as outras obras uma espécie de atentado ao pudor, pelo que podemos perceber. Considero sua opinião infundada, pois, com a atual política existente no Brasil, os cineastas (assim como diretores de teatro, produtores, escritores, poetas, pintores etc), normalmente, podem abordar o tema que queiram, não sendo culpa deles se consideramos o conteúdo impróprio. Ou deixaremos de produzir filmes que retratem a guerra, pois isso pode ser uma influência negativa para as crianças??
Cazuza pode não ser merecedor de um filme, de acordo com o pensamento de Karla Christine, que não compreende ou não aceita que ele o foi para tantas pessoas envolvidas no processo de criação, inclusive sua mãe.
Além disso, báh!, as pessoas possuem características diferentes, temperamentos diferentes, gostos diferentes. Por isso, os filmes também possuem conteúdos diferentes. Não é lógico?? O que seria, por exemplo, dos fãs de filmes de terror se só existisse os westerns nas locadoras?
A vida de Cazuza é, no mínimo, interessante para muita gente; caso contrário não teria sido inspiração para um longa-metragem.
O mesmo exemplo do que podemos chamar tolerância cultural, se estende para o nosso dia-a-dia, na tolerância/compreensão/respeito para com o outro.
Seria justo/bonito/aceitável/ético fecharmos um círculo de pessoas que consideramos “ideais” e imaginar que só elas nos interessam e que as atitudes do restante do mundo não nos dizem respeito?? Evoluiremos tapando nossa visão para o que ocorre ao nosso redor e tentando enxergar somente o que nos agrada?? E a tão falada diversidade mundial como fica?
O que é mais produtivo: buscar/exigir meios de evitar/diminuir o tráfico de drogas ou, simplesmente, falar mal de um cidadão X que teria praticado tráfico??? Creio que a segunda opção gere muito mais desgaste, tristeza e pessimismo na população nacional do que mobilização e resultados que, por si só, gerem progresso.
As pessoas representadas pelos atores, o Cazuza em específico, e as pessoas de um modo geral, possuem sua unicidade.
Se uma pessoa fosse como gostaríamos que ela fosse, ela não seria um ser humano, mas uma representação injusta de nossa vaidade.
Acredito que todos mereçamos um mínimo de respeito.
Também seria interessante que descêssemos um pouco do pedestal. Todos, temos alguma coisa a aprender com a história do outro, ora bolas!
Portadores do HIV, de “vida promíscua” ou não; LGBTs, de “vida promíscua” ou não; heterossexuais, de “vida promíscua” ou não; drogaditos, que queiram deixar o vício ou não; alcoolistas, que queiram se recuperar dessa doença ou não; ricos (“filhinhos de papai") ou não; filho de dono de gravadora ou não; artista exemplo de conduta, ou não; "santos e pecadores", de acordo com a percepção de cada um, assim rotulados ou não: TODOS nós somos parte de uma mesma espécie, possuidora de integrantes que são, ao mesmo tempo, iguais e diferentes entre si.
O próprio artista em questão, juntamente com Frejat, deixou seu recado também em seu conhecido "Blues da Piedade"...
Acreditem: o respeito é mais importante que a discriminação; as atitudes são mais importantes que as palavras.
Subestimar não é o melhor caminho.
Se eu quero ser um homem ou mulher exemplo e quero que meus filhos também o sejam, talvez esteja na hora de começar a avaliar o conteúdo de minhas palavras e ações, pois somos influências para eles. Não a única referência, mas uma referência especial.
Não chegaremos muito longe enquanto não deixarmos de procurar em terceiros, ou em nós mesmos, motivos para sermos melhores ou piores e passarmos a nos enxergar como realmente somos: habitantes da Terra, em igual condição de significância perante a natureza.
Não achei que isso fosse ficar tão grande, mas acho difícil reduzir agora.
Pensem como quiser, mas, por favor, não julguem pessoas.
Cada um possui sua própria "missão", seus interesses pessoais, seus objetivos.
Cada um possui suas próprias dificuldades, sua história de vida, sua percepção de vida, seus desejos de recomeçar, para ter um comportamento diferente, ou igual.
À família do Cazuza basta as dificuldades que encontraram e encontram. Para quê cutucar o que já é uma ferida se não temos certeza de muita coisa e não podemos mudar o que já ocorreu??
Como bem disse Caetano, "Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é".
Se almejamos uma mudança positiva para o presente e para o futuro, não é na degradação de nossos semelhantes que ela será alcançada.
Sei que ela não é a única a fazer crítica desse gênero, mas ela fez, e ela (crítica) chegou até mim.
Cara Karla, não gostamos do artista e de sua arte pelo que podemos encontrar de negativo neles, mas sim por algo muito maior. Se sua filha gostar da arte do Cazuza, isso não será determinante para que ela seja uma réplica do mesmo.
Muitas vezes, acostumados com nossas próprias características, não conseguindo aceitar pessoas diferentes. Com isso, criamos um padrão de conduta, para nós mesmos, para o próximo e, principalmente, para as pessoas de vida pública, que muitos querem que sejam exemplos para os demais, se esquecendo que, assim como as demais, elas estão sujeitas a não agradarem a todos.
Exercitemos nossa reflexão, respeito, gentileza, tolerância.
É só uma opinião.
André, estudante.
Texto: André Medeiros
Disponível aqui: http://elefantesepassaros.blogspot.com/

